A vida além do carro

Em 22 de setembro, foi celebrado o Dia Mundial Sem Carro. Criada em 1997, na França, a data tem o objetivo de incentivar a reflexão sobre o uso excessivo do automóvel e propõe àqueles que se deslocam diariamente usando carros que repensem esse hábito – ou, em muitos casos, essa dependência.

Mobilidade sem carro, aliás, é o tema do momento. Políticas urbanas, pesquisas e seminários vêm sendo realizados por especialistas de diferentes áreas (arquitetos, urbanistas, engenheiros, administradores e especialistas em meio ambiente) em torno do assunto. Apesar disso, basta lembrar que o século 20 foi a era dos automóveis para constatar que o legado da cultura do carro ainda é bastante visível na maior parte das metrópoles mundiais.

Correndo atrás do prejuízo

Com o trânsito, a poluição e mesmo o sedentarismo chegando a níveis inaceitáveis em muitos lugares, o modelo de desenvolvimento baseado no carro vem sendo altamente criticado e desencorajado. A boa notícia é o aumento dos investimentos em soluções que favoreçam a andabilidade (cidades mais caminháveis), o uso da bicicleta e do transporte coletivo. Conheça projetos e alternativas de mobilidade que apontam para um futuro mais sustentável e menos engarrafado.

Sobre o mar

Copenhagen apostou na construção da ponte Cykelslangen (Serpente de Bicicleta, em tradução livre) para se tornar ainda mais amigável aos ciclistas. Inaugurada em 2014, a estrutura tem 230 metros de extensão e parece serpentear sobre o mar. O projeto do DISSING+WEITLING architecture se tornou exemplo de sustentabilidade.

Crédito: Rasmus Hjortshoj/DISSING+WEITLING architecture
Construída em Copenhague, na Dinamarca, a ponte para ciclistas Cykelslangen serpenteia o mar e se tornou exemplo de sustentabilidade

Legado olímpico

O Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) começou a ser testado no Rio de Janeiro em junho deste ano, a poucos meses do início dos Jogos Olímpicos. Silencioso e não poluente, o VLT é movido à eletricidade e acomoda até 420 passageiros, que podem viajar bem acomodados e são beneficiados pelo ar-condicionado.

Ao contrário dos antigos bondes que percorriam as ruas do Rio entre os séculos 19 e 20, o VLT não possui fiação aérea, a energia é captada por um trilho posicionado entre a superfície e o rolamento. Foi pensado também para proporcionar um passeio agradável pelo centro da cidade. As janelas envidraçadas permitem aos passageiros admirar as belezas da paisagem.

Crédito: Divulgação/Prefeitura do Rio de Janeiro | Agência Brasil
Um dos legados do Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, o VLT é um meio de transporte não poluente e oferece aos passageiros conforto e uma bela vista da cidade

Túnel motorizado

Outro exemplo de transporte rápido e eficiente que ganhou os holofotes é o ônibus-túnel (ou Ônibus Elevado de Passagem) que está em teste na cidade chinesa de Qinhuangdao. Cada veículo tem capacidade para transportar até 300 pessoas. Em comboio, esse número pode chegar a 1.200.

Embora a quantidade de passageiros impressione, o que mais chama atenção no imenso ônibus é seu design, inspirado em um túnel, o que faz com que fique suspenso possa se deslocar sobre os automóveis. Além de não ficar preso nos engarrafamentos, o ônibus-túnel não contribui para aumentá-los.

Crédito: Luo Xiaoguang-Xinhua
Em fase de teste na China, o ônibus-túnel tem capacidade para transportar até 1.200 passageiros e consegue trafegar sobre os carros

Ciclista paulistano em foco

As ciclofaixas e ciclovias já fazem parte do cotidiano dos paulistanos há algum tempo. Mas tiveram uma expansão significativa nos últimos anos. Em junho de 2016, já somavam 414,5 quilômetros, extensão seis vezes maior que há dois anos. Com o aumento das vias especiais para ciclistas, cresceu também a quantidade de bicicletas nas ruas de São Paulo. Segundo uma pesquisa do Ibope, o número de usuários de bike aumentou em torno de 70% em 2014.

Até 2030, o Plano Municipal de Mobilidade Urbana prevê a criação de mais 1.300 quilômetros de ciclovias na cidade. E não são apenas as ruas que estão se adaptando: para obter o alvará da prefeitura, projetos de construção ou de reforma de edifícios têm que incluir um bicicletário de fácil acesso e estrutura adequada à nova realidade da maior cidade do país.

Crédito: Fábio Arantes/Secom
Nos últimos anos, as ciclovias tiveram uma expansão significativa em São Paulo, fazendo com que o número de ciclistas na cidade aumentasse 70% em 2014

Projeto ambicioso

No início de 2014, o escritório britânico Foster + Partners divulgou um plano para construir uma rede de ciclovias elevadas sobre as linhas de trem de Londres. Caso seja construída, a SkyCycle terá 220 quilômetros de vias especiais para bicicletas, acompanhando as linhas de trem da região. Com mais de 200 pontos de entrada, a via terá rotas com capacidade para mais de 12 mil ciclistas por hora e ajudará a desafogar o trânsito nas ruas e o excesso de usuários na rede de transporte público da capital do Reino Unido.

O entusiasmo do Foster + Partners pela vida sobre duas rodas é tamanho que o escritório criou uma equipe de ciclismo, formada por profissionais da empresa, e investiu em infraestrutura para guardar as cerca de 200 bicicletas dos funcionários que chegam ao trabalho pedalando.

Crédito: Fosters + Partners
Ambicioso, o projeto do escritório de arquitetura Foster + Partners, prevê a instalação de 220 quilômetros de vias para bicicletas para desafogar o trânsito de Londres